Deslocamento forçado exige respostas de longo prazo e investimento coletivo
Imagine que o seu telemóvel emite um alerta de emergência para terramoto. Talvez tenha alguns minutos ou apenas segundos antes dos tremores começarem.
Imagine que o seu telemóvel emite um alerta de emergência para terramoto. Talvez tenha alguns minutos ou apenas segundos antes dos tremores começarem. Talvez seja tempo suficiente para reunir a família e sair de casa. Mas certamente não será suficiente para salvar tudo o que construiu ao longo de uma vida. Para acima de 117 milhões de pessoas deslocadas à força, este cenário não é um exercício de imaginação. É a realidade. Existe uma tendência para encarar este tema como um problema distante, restrito a determinadas regiões do mundo. Mas vivemos numa economia profundamente interdependente. As cadeias de abastecimento atravessam continentes, os mercados funcionam em rede e acontecimentos ocorridos a milhares de quilómetros influenciam preços, investimentos, cadeias logísticas, fluxos migratórios e níveis de confiança económica. Há muito tempo, o deslocamento forçado deixou de ser apenas uma questão humanitária. É igualmente uma questão económica, social e de desenvolvimento.
É precisamente neste contexto que o envolvimento do setor privado assume uma importância crescente. As empresas operam hoje em ambientes globais e dependem de sociedades estáveis, resilientes e capazes de responder a desafios complexos. Consequentemente, contribuir para soluções duradouras para as populações deslocadas não é apenas uma questão de responsabilidade social. É igualmente uma forma de investir na estabilidade dos mercados, no fortalecimento das comunidades e na construção de economias mais robustas. Sobretudo, se tivermos em conta que aproximadamente 70% dos refugiados do mundo vivem em situação de deslocamento prolongado há pelo menos cinco anos (Global Trends Report 2025, ACNUR). São cinco anos num país que não é o seu, sem um lar permanente, sem perspetivas claras de regresso e, muitas vezes, sem acesso regular a oportunidades de educação, emprego ou integração.
Quando o deslocamento se prolonga durante tanto tempo, a resposta não pode limitar-se à assistência imediata. Exige acesso à educação, formação profissional, emprego, serviços essenciais e mecanismos que promovam autonomia e inclusão económica. E são várias a evidências que demonstram que, quando lhes são dadas oportunidades reais de integração, as pessoas refugiadas tornam-se participantes ativos das economias que as acolhem. Trabalham, empreendem, consomem, geram rendimento e criam valor. Entre elas encontramos profissionais de saúde, engenheiros, professores, agricultores, especialistas em tecnologia, comerciantes e estudantes. Pessoas cujas competências e experiência não desaparecem quando atravessam uma fronteira. Num estudo recente sobre o impacto económico dos refugiados ucranianos, a Deloitte e o ACNUR concluíram que a sua integração contribuiu positivamente para a economia polaca, representando um impacto líquido estimado de 2,7% do PIB em 2024 (Poland: Analysis of the impact of refugees from Ukraine on the economy of Poland, 2ª Edição, 2025, Deloitte e ACNUR). O estudo demonstra ainda que políticas de inclusão, acesso ao mercado de trabalho e formação linguística podem ampliar esses benefícios, reforçando o contributo económico das populações deslocadas para os países de acolhimento.
Naturalmente, o acolhimento e a integração exigem investimento. Mas encará-los apenas como um custo é ignorar o potencial económico, social e humano que acompanha milhões de pessoas forçadas a abandonar os seus países. O verdadeiro desafio consiste em criar condições para que esse potencial possa ser desenvolvido e colocado ao serviço das comunidades onde estas pessoas reconstruirão as suas vidas. É por isso que as parcerias entre organizações humanitárias, setor privado e setor público são hoje mais importantes do que nunca. Estas alianças permitem combinar recursos, conhecimento técnico, capacidade de inovação e experiência operacional para responder de forma mais eficaz a desafios cada vez mais complexos. Mais do que financiar respostas de emergência, tornam possível investir em soluções duradouras que beneficiam simultaneamente as pessoas deslocadas e as comunidades que as acolhem. No fundo, trata-se de compreender que a estabilidade, a prosperidade e o desenvolvimento dependem cada vez mais da forma como respondemos aos desafios que ultrapassam fronteiras.
O deslocamento forçado é uma das grandes questões do nosso tempo. Conflitos prolongados, fragilidade institucional, instabilidade política e fenómenos climáticos extremos continuarão a forçar milhões de pessoas a abandonar os seus lares nas próximas décadas. A questão já não é se estas crises continuarão a acontecer, mas antes como iremos responder-lhes. A sua escala e duração exigem uma visão de longo prazo e uma capacidade de mobilização coletiva à altura do desafio. Num mundo cada vez mais interligado, apoiar soluções duradouras para as pessoas deslocadas não é apenas um imperativo humanitário. É um investimento no futuro coletivo que partilhamos.
O.Auer--NWT